Dançando no escuro


Um dos raros momentos em que o protagonista de Moonlight (Chiron) parece à vontade consigo mesmo e com o mundo é na aula de dança, na escola. Diante de um espelho enorme – e, aparentemente, nem aí para as crianças que dividem a sala com ele –, o menino sacode o corpo como se o ar (e a vida) não oferecesse resistência.

Negro, pobre, gay, criado apenas pela mãe (que se droga e se prostitui) no subúrbio de Miami, o jovem – interpretado por Alex R. Hibbert na infância, Ashton Sanders na adolescência e Trevante Rhodes na fase adulta – tem uma extensa lista de motivos para se sentir marginalizado e se esconder numa casa escura e abandonada ao fugir dos colegas que o perseguem, no começo do filme.

É particularmente bonita (pois metafórica) a cena em que ele é resgatado de lá por aquele que virá a ser o pai que nunca teve: Juan surge arrancando o tapume de uma das janelas, permitindo assim que o sol finalmente incida sobre Chiron. É como se o personagem vivido por Mahershala Ali desse à luz o pequeno – “batizado” mais tarde no mar pelo mesmo Juan em outra cena lindíssima, igualmente inundada de significado.

Uma e outra sequências são marcadas ainda pelo silêncio do garoto, traço tão ensurdecedor de sua personalidade, que atravessa todo o longa. Sua dificuldade em verbalizar os sentimentos vai do instante em que é acolhido por Juan e resiste a falar (até o próprio nome), passa pelo episódio em que apanha de um amigo e atinge o ápice no último ato, quando hesita ao máximo em revelar a certo personagem o quanto este foi (e ainda é) importante para ele.

Tais silêncios ecoam a delicadeza do roteiro e da direção de Barry Jenkins, que jamais se rende aos acordes tentadores do melodrama. Não por acaso o cineasta usa uma simples frase para informar ao espectador que fim levou Juan, dispensando dessa maneira uma cena que, nas mãos de um diretor menos sutil, elevaria os decibéis de glicose a níveis estridentes. Da mesma forma, em outra passagem capital da trajetória de Chiron, o mar e a mão que roçam a areia são suficientes para que a plateia escute o alvoroço de sensações experimentado pelo protagonista.

Numa época em que parece ganhar atenção apenas quem fala mais alto (pouco importando o que é falado), traz certo alívio ver um filme como esse – que sussurra o grito de tantos excluídos – vencer um prêmio tão barulhento quanto o Oscar, ainda mais quando o superultramegafavorito da noite é um musical, talvez o gênero que mais berre sua natureza de faz de conta.

Nada contra La La Land, de que também gosto e cujas canções assobio há semanas, mas dar voz à trilha sonora de uma vida que, em outros carnavais, não ganharia os alto-falantes de Hollywood ajuda os ouvidos a reeducarem a própria audição – e a expandirem o repertório de melodias disponíveis na jukebox que toca no peito.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.
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Eu, Tituba, uma reflexão


É, Tituba, senhora menina, o sangue que percorre suas coxas, expõe seu ventre triste, que inunda alma da mais sufocante lagrima, que transborda o peito, mas no olho se cala. Mulher, ao corpo da vida. E a vida? Diga lá o que é minha irmã.
Doce Tituba, em seu olhar deslumbro o mundo, desvendo o tempo, incerto em sua aurora, traz esperanças poentes. Mais um dia se lança, alça ao chão esperança de um novo caminho. O que importa é estar vivo. Hoje é o nosso presente, mas, por vezes, parece martírio.
Nesses dias que precedem o outono senti frio, suei frio, calei frio e me reservei a leitura, pouco escrevi, refleti incessantemente sobre o amanhã. Tive medo e sorri exposto pelo bom gosto que tenho pela vida, tive medo e sorri nervoso por me ver sem saída, sorri exposto e sufoquei o amargo gosto das minhas feridas, tive medo.
Medo de não ter trabalho pra seguir o fardo que me deu a vida, medo de cair doente, de ter dor de dente, de faltar o leite, de ter sangue quente e enfrentar chefia, medo da carência, da reforma da previdência, da falta de moradia.
Tenho medo do tempo, de me ver menino, arrastado por vielas e ruas, nú, desfalecido. De me ver homem, jogado a sorte, cravado de tiros. De me ver velho, trabalhando de sol a sol como se pagasse dívida por estar vivo.
Pobre Tituba, nesses dias, recordo o lamento que me cantaste ao pé do ouvido:
“A pedra da Lua caiu na agua
Na agua do rio
E meus dedos não conseguiram pesca-la de volta,
Pobre de Mim!
A pedra da lua caiu.
Sentada na à beira do rio
Eu chorava e me lamentava.
Oh! Pedra doce e brilhante,
Luzes no fundo da agua.
O caçador vem passando
Com as flechas e a aljava
Bela, bela, por que choras?
Choro pois minha pedra da lua
Ficou no fundo da agua.
Vou te ajudar
Mas o caçador mergulhou e afundou.”

Tituba, minha mulher sofrida, me ensina a suportar minhas dores, a derramar as lagrimas devidas, a encharcar a terra com o sangue da vida, hoje sou mais forte, pois aceitei minha parcela de amarguras e levantei para mais um dia, o importante é estar vivo. E a vida? É...

Referencia: CONDÉ, Maryse. Eu, Tituba, feiticeira...negra de Salem/Maryse Condé;tradução de Angela Melim. - Rio de Janeiro : ROCCO, 1997.


Augusto Lopes Ferreira é historiador pelo Centro Universitário Fundação Santo André - CUFSA. Atuou como professor de história na rede estadual e privada. posteriormente migrou para Saúde mental, tendo atuado em República Terapêutica Infanto Juvenil e atualmente no Programa De Braços Abertos.



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O SURREAL POLONÊS AOS OLHOS DA ARTE


"Chciałbym malować w sposób, który mógłby sfotografować sny"
"Eu gostaria de pintar de uma forma em que pudesse fotografar os sonhos"
(Zdzislaw Beksinski)


Aparentemente o movimento surrealista em seus primórdios não atingiu a porção leste da Europa, já que quase todas as referências se concentram na Paris da década de 1920, mas só aparentemente... essa importante corrente vanguardista que viria a definir o que hoje conhecemos por modernismo e que brotou no difícil momento histórico entre as duas guerras mundiais, ganhou dimensão mundial e influenciou e influencia artistas de todas as partes do mundo até os dias de hoje. Na Polônia não poderia ser diferente.

Zdzislaw Beksinski (1929-2005), definido como o 'artista da apocalipse', embora ainda pouco conhecido, foi um pintor polonês que realizou um trabalho magnífico e que sempre foi inspirado pelo imaginário do surrealismo, e do qual iremos tratar em outra edição, particularmente. A tradição do cartaz polonês e os trabalhos de outros expoentes atuais como Jacek Yerka (1952), e os desenhos das tatuagens de Lukasz Sokolowski (1983), por exemplo, revelam essa estreita ligação dos artistas poloneses com o surrealismo.


Pintura de Zdzislaw Beksinski.
Inspirado por toda essa atmosfera da arte polonesa, foi que um grupo de União da Vitória no Paraná, realizou a primeira edição do Surreal Polonês aos Olhos da Arte em 2016, tendo a Prof.ª Marisa M. Klobukoski Marcon como idealizadora, com a coordenação de Ludmiła Pawłowski, professora de língua polonesa e de sua aluna Fernanda Strobino.

A exposição, de caráter itinerante tem o objetivo da universalização do conhecimento sobre a Polônia e a cultura polônica. Por isso, cada um dos artistas escolheu um tema para a análise criativa no contexto da Polônia, como religião, economia, política, natureza, educação, moda, amor, dança etc. Os materiais para a realização do projeto foram adquiridos por meio do apoio financeiro do Consulado Geral da Polônia em Curitiba, com a participação dos próprios artistas de forma voluntária.

São ao todo 22 artistas participantes: Israel Checozzi, Simone Koubik, Marlon Bauer, Aclair Helena Bailke, Ulisses Teixeira, Eloir Amaro Júnior, Everly Giller, Maria Salette Strobino, Márcia Széliga, Heliana Grudzien, Ana Inêz Schreineiner, Keh Michelotto, Felipe Petola, Léo Ferreira, Janete Azeredo, André Brik, Izabel Liviski, Mari Inês Piekas, Elaine Stankiwicz, Claudio Boczon, Schirlei Freder, Juliana Kudlinski. Confira alguns dos artistas e suas obras, que irão expor seus trabalhos na edição de 2017:

André Brik é curitibano, estudou Design Gráfico na School of Visual Arts e na Parsons School of Design em NY. Atua como Arquiteto, Ilustrador e Diretor de Arte. Seu trabalho tem a influência tanto do Grafitti, do surrealismo como também da criação gráfica publicitária da primeira metade do século passado: o cartazismo polonês e o “sachplakat". Mas sempre com um toque de malícia e senso de humor bem brasileiros. 

Sobre a obra 
latający pieróg” ("o pierogie voador"), André diz: "Minha avó costumava fazer deliciosos pierogies, do tipo 'ruski'com recheio de batata e ricotta e coberto com cebolas fritas. Os  dela não voavam, mas faziam você chegar nas nuvens".



"Latający Pieróg" ("O Pierogie Voador"), ilustração digital, de André Brik.


Everly Giller é curitibana, artista plástica e professora de língua polonesa. Sobre sua obra, "Przyroda" ("Natureza Surreal") Everly diz, "Meu tema é a natureza como o próprio título indica, me inspirei nas 4 estações do ano que na Polônia são bem definidas e distintas. Representei as 4 estações com árvores diferentes que se entrelaçam entre si, formando uma cruz que simboliza a união, força e espiritualidade do povo polonês. Ao fundo evidenciei o grande Rio Wisła que corta o país de norte a sul.

                          "Przyroda" ("Natureza Surreal"), acrílica sobre tela de Everly Giller.


Izabel Liviski é também curitibana, fotógrafa e professora. Sobre seu trabalho comenta: "Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos, é uma fotografia realizada em Varsóvia no ano de 2016. Trata-se do recorte de uma instalação colocada em frente ao Teatr Dramatyczny Warszawa, localizado no famoso Pałac Kultury, e que faz referência à Shakespeare e sua obra. Procurei captar a luz ambiente e fazer uma composição de forma a dar esse aspecto de sonho, de irrealidade através de imagens que se fundem e se diluem, uma metáfora da passagem do tempo e da vida...o título é uma frase atribuída ao próprio Shakespeare."



"Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos", fotografia de Izabel Liviski.





Serviço:
Exposição “O Surreal Polonês aos Olhos da Arte”
Abertura: 30 de março de 2017, às 19:00 hs.
Local: Casa da Cultura Polônia-Brasil.
Rua Ébano Pereira, 502
Curitiba-Paraná.
http://poloniabrasil.org.br






Todo o processo do evento e a exposição final receberam o apoio do Consulado Geral da República da Polônia em Curitiba.
http://www.kurytyba.msz.gov.pl




O acervo dos quadros que fazem parte do projeto pertencem à Associação Cultural Polono-Brasileira Karol Wojtyla de União da Vitória, no Paraná e todas as atividades relacionadas ao mesmo estão documentadas no website:
https://www.facebook.com/brasilpoloniasurrealismo2016/?fref=ts



Flyer da Exposição.
Ilustração Digital: André Brik
Arte: Axel Giller


                                                              ***


















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Como tudo começou? Um Departamento de Cultura na cidade de São Paulo

Depois de 2016, nós, brasileiros, temos vivenciado tempos difíceis!
Árduos e inaceitáveis por professores, artistas, intelectuais, estudantes e todo cidadão que atua em esferas, digamos, menos pragmáticas e lucrativas!

Por que aceitamos?

Por que não lutamos?
Lutamos!

Com palavras, linguagem não verbal
protestos virtuais
desabafo com amigos
alusão aos nossos heróis

Solução?
Apenas para os grandes empresários

Evolução. Revolução. Revoltarão.


“Cala-te boca pelas milícias do não!”


             O então “presidente” Michel Temer, em maio de 2016, decidiu extinguir o Ministério da Cultura (MinC).  Fazendo usos de verbos como “redirecionar”, “alocar”, “remanejar”, houve uma tentativa de amenizar as contestações que surgiam em meios artísticos e algumas manifestações populares contra essa decisão.
            Houve, também, pronunciamentos de representantes do governo, sobre os novos rumos planejados para o Ministério da Cultura: como vincular a Cultura ao Ministério da Educação (MEC). Essa medida parecia ser, para algumas pessoas, a decisão correta. Afinal, era (é) preciso gastar gastos, e, assim sendo, para que cultura?


          No nosso dia-a-dia é comum encontrarmos frases do tipo: “mas aquele ali não tem cultura”, “que pessoa sem cultura”...
         Se assim fosse, Michel Temer não estaria tão equivocado por extinguir o MinC para cortar gastos. Já que poucas pessoas têm cultura, de acordo com o senso comum, é aceitável acabar com um Ministério insignificante.
            Mas, vamos por partes porque a prosa é longa!
        Antes de apresentar uma contextualização sobre a criação do Ministério da Cultura, é primordial que conheçamos os motivos que impulsionariam a sua criação. Por isso, na nossa primeira conversa sobre o MinC iremos falar sobre o Departamento de Cultura de São Paulo.
        A criação do primeiro Ministério da Cultura ocorreu no ano de 1985, no governo de José Sarney. Mas vamos começar antes desse marco de Ministério independente.
            Nosso ponto de partida começa no ano de 1935, quando Mário de Andrade tomou posse como diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo. Departamento na época equivalia a Secretaria e Mário de Andrade foi o primeiro secretário de cultura do país.
Fábio Padro assumia o poder local em 1934. Pautado em ideais ideológicos, o mandato do prefeito, membro da família de maior prestígio da elite paulista, destacou-se pela tentativa de superar os conflitos das classes trabalhistas, investimento na educação infantil, gestão vinculada ao taylorismo, transformação de diretorias em departamentos, dentre as quais ressaltamos a criação do Departamento de Cultura, e algumas construções como a Avenida Nove de Julho, a Biblioteca Municipal, o Estádio do Pacaembu e o novo Viaduto do Chá que seguiam os caminhos arquitetônicos das obras do período anterior (CAMPOS, 2002, p.499).
Naquela época, a Prefeitura de São Paulo contava com seis departamentos: Obras; Expediente e Pessoal; Higiene; Fazenda; Jurídico; Cultura e Recreação.
O Departamento de Cultura abrigava ações de Assistência Social, Esportes, Lazer, de Turismo, Estatística e Planejamento, Meio Ambiente e contava com 10% do orçamento da Prefeitura, conforme decisão do prefeito do mandato, Fábio da Silva Prado.
            De início, traçaram o seguinte objetivo para o DC: “estimular e desenvolver todas as iniciativas destinadas a favorecer o movimento educacional, artístico e cultural” da cidade. Para isso, quatro divisões compunham o Departamento: Expansão Cultural, Educação e Recreio, Documentação Histórica e Social, e Bibliotecas.
            De acordo com Carlos Augusto Calil e Flávio Rodrigo Penteado, a primeira providência do DC foi atuar sobre a realidade de São Paulo por meio de pesquisas sociais e etnográficas que detectassem problemas na alimentação, moradia e educação. A ideia foi ampliada para fundir educação e lazer, visando o desenvolvimento das crianças por meio de acompanhamento profissional. Dentre os projetos criados no D.C, merece atenção as bibliotecas ambulantes e a Seção de Rádio-Escola.
            Além disso, a preocupação com o patrimônio imaterial foi uma constante na gestão de Mário de Andrade. No intuito de investigar aspectos formadores de uma verdadeira “brasilidade”, realizaram-se pesquisas de manifestações da cultura popular no interior do estado de São Paulo e na Bahia. Essas iniciativas culminaram naquele que talvez tenha sido o mais ambicioso dos projetos do Diretor do Departamento de Cultura: a Missão de Pesquisas Folclóricas.
            A meta da Missão era registrar as manifestações da cultura popular em vias de desaparecimento, face à industrialização e à difusão massificada de referências culturais estrangeiras por meio do rádio ou do cinema.
Durante cinco meses, a missão atravessou Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão e Pará, enfrentando toda sorte de problemas, decorrentes, em grande parte, do momento político vivido pelo Brasil, pois em novembro de 1937 instalara-se o Estado Novo.
O Departamento de Cultura permitiu a Mário de Andrade colocar em prática alguns assuntos que vinha estudando e que, até então, existiam no plano teórico. Nesse sentido, ele fez desse organismo político um local capaz de implantar atividades humanistas na cidade, as quais foram demolidas em prol da priorização da urbanização da metrópole, pois governantes como Abraão Ribeiro e Prestes Maia demoliram as faíscas que sobraram do Departamento de Cultura dando ênfase na construção das grandes avenidas paulistanas.
            Com a implantação de uma nova política em 1936, os responsáveis pela fundação do Departamento de Cultura começaram a ser afastados e suas propostas iam sendo, aos poucos, exterminadas. Exemplo notório foi as apresentações artísticas exibidas gratuitamente pelo Departamento de Cultura que passaram a ser cobradas, e os concertos nos bairros operários que foram suspensos. Mário de Andrade, vítima desse sistema político, além de ser demitido do Departamento, foi reprendido pela ditadura, a qual fiscalizava cartas e crônicas do escritor.


 Referências Bibliográficas:
CALIL, Carlos Augusto. PENTEADO, Flávio Rodrigues. Me esqueci completamente de mim, sou um departamento de cultura. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015.

CAMPOS, Candido Malta. Os rumos da cidade: urbanismo e modernização em São Paulo. São Paulo: SENAC, 2002.


Bruna Araujo Cunha é doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Letras/Estudos Literários pela Universidade Federal de Viçosa, graduada em Letras pela mesma instituição. Tem experiência na área de Letras, atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura e Sociedade, Literatura e espaço urbano e poesia brasileira.

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ELE


Corriam livres, o homem e o animal.
Assim disseram, certa vez, e disseram que as pernas eram o vento e que o vento deslizava sobre a face das águas e que os corpos eram a um só coração e que o dia e a noite eram o tempo da eternidade a um só tempo, um instante que não se movia, antes do nascimento da morte e pouco depois do céu afastado, quando o amor era ainda um projeto e pairava, acima das ondas, como espuma, buscando um areal que o soubesse acolher.
Depois,
disseram,
as primeiras cidades brotaram do chão e as primeiras torres vieram e as muralhas e as ruas e as guerras, mas os dois - que, a essa altura, já eram dois - seguiram correndo, ao redor das colinas, entre os arvoredos, no vão das minúcias, nos detalhes passageiros, nos ruídos diminutos, na grandeza do firmamento.
Então,
pelo que contam,
veio a hora da paragem.
O solo cobriu-se de pedras, os troncos ficaram mais finos, os frutos, iluminados, e os cipós correram, regularmente, de uma copa à outra. As cores ficaram menos coloridas, os sons, mais metálicos, as tocas, mais confortáveis. A encosta enfeitou-se de casas e as casas pareciam caixotes e os caixotes cresciam à beira das calçadas, nas proximidades da feira - nos arredores dos sábados, quando os dias ganharam nomes e as noites perderam a autonomia. Passaram a caminhar, melindrosamente, um ao lado do outro, o homem e o animal. Especulativos, a colher de perto as novidades. Tinham, ainda, a mesma estatura, o mesmo empenho, a mesma força.
Dessa forma foi que,
de acordo com as fontes,
passaram, tão logo, a uma habitação. O homem e o animal, todos os dias, aguardavam o sol despontar emoldurado entre o risco distante dos montes. Esperavam, juntos, o primeiro calor daquele fio dourado que, rasgando o cômodo, ia dar na parede dos fundos e, sem demora, na cama e nos dois. E aquela febre era a lembrança distante e antiga de qualquer coisa fugidia - como era também a luz sem recheio da lua durante a noite, combatendo, até tarde, o fingimento das lâmpadas e do fogo. Foi por essa época, disseram, que o abismo, primeiro como um furo quase imperceptível, depois como um girassol, começou a florescer. De nada a quase nada, de quase nada a muito pouco - foi desdobrando, pétala a pétala, entre os dois.
E a pele do animal tornou-se avermelhada
e sobre a cabeça nasceram-lhe galhos
e pelos nasceram, aqui e ali, escondendo-lhe o corpo.
Tijolo em tijolo, uma parede - como hera - foi  se erguendo, apoiando-se na textura nova dos minutos, no peso armado das horas, no denso volume do ar. Pela greta dos olhos, alguns silêncios, as desconfianças, uma e outra palavra aveludada, e uns resmungos rochosos garantiram a argamassa. As indisposições foram usadas como nivelador. Os defeitos foram cobertos com uma tinta à base de farsa, ironia, sarcasmo e sonsice. Para garantir a preservação, assegurando a impermeabilidade, aplicou-se o desligamento e, para que não houvesse infiltrações, o abandono.
No quarto, o animal esperou.
Às vezes, via passar, por debaixo da porta, criando um vago no risco amarelo do chão, um vulto - que passava acompanhado de algumas vozes. Eram sempre conversas polidas, sem alterações de tom ou de ritmo, sem sobreposições e de ânimos ponderados, muito regulares. A lembrança do homem, aos poucos, tornava-se difusa. A fome, a solidão, a sede e a falta de sono colaboravam para a borra que tomava, como um cancro, a malha frágil do passado, contaminando as escalas, perturbando as fronteiras e os traços mais finos.
Às vezes,
no meio da noite,
o corredor se iluminava.
Por duas ou três vezes, o animal teve a impressão de ver um tremor sem ruído na maçaneta. Uma respiração pesada do revés da madeira. Vez ou outra, depois da noite tomar canto, tinha a sensação de reconhecer um negrume mais intenso no vão escuro por debaixo da porta. Chamou, algumas vezes, e, algumas vezes, teve esperança.
Esperou.
Os ramos que brotavam de sua cabeça eram agora imensos. Sua pele, um brasil. Seus olhos, por terem bebido da sombra e da ausência por demasiado tempo, eram a noite da noite avolumada. Seus pés, por nunca se moverem, tornaram-se cascos. E a raiva e a revolta e a angústia, depois de crescidas, com as raízes bem cravadas e firmes, se alimentando largamente daquele rio profundo, davam já, depois da floração, seus primeiros frutos.
Até que um dia,
por distração ou esquecimento, disseram alguns,
por conta de uns goles, outros disseram,
o homem abriu a porta.
Por um instante, se encararam com surpresa. Não se reconheciam, o homem e o animal. Ficaram imóveis, testando o contato, medindo a distância, reconhecendo o perímetro. Ele já não sabia a razão do quarto, nem o porquê de estar no quarto, nem os motivos de permanecer ali. Ele não sabia o propósito da porta, o que guardava ou escondia ou preservava. Ele passava todos os dias por ali. Ele sempre esteve ali. Algumas vezes, sem saber a causa, sentiu-se tentado a entrar. Sentiu-se, algumas vezes, preso. Quis sair.
Ele,

o homem e o animal.
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A desigualdade e a previdência social



Muitas pessoas estão insatisfeitas com toda crise que assola o país. Corrupção na política. Educação, saúde, transporte e segurança pública precárias. Criminalidade e violência só aumenta, e a justiça falha. 

Embora o Brasil seja um país rico em recursos naturais e com um PIB (Produto Interno Bruto) classificado entre os 10 melhores do mundo, existe uma péssima distribuição de seus recursos entre a população. Com isso, pode-se considerar uma nação de extrema desigualdade social. 

Para medir a desigualdade social é utilizado o índice (ou coeficiente) de Gini, que apresenta dados de 0 (que corresponde a completa igualdade entre as rendas) a 1 (completa desigualdade). Ou seja, quanto mais próximo está do número 1 mais desigual é a distribuição de renda e riqueza, e quanto mais próximo está do 0 mais igualitário será. Assim, quando falamos que um país sofre com a desigualdade social, quer dizer que são poucas pessoas que detêm a maior parte da renda e a maioria da população pouco ou nada têm.


O país está entre os piores nos dados em nível mundial:

CIA Factbook, 24/12/2013.
Segundo os indicadores nacionais, na cronologia de mais ou menos cinquenta anos, pode-se considerar que houve uma melhoria significativa no país em relação à distribuição de renda e riqueza, principalmente, após o período ditatorial.



Apesar de notarmos uma melhoria na distribuição de renda e de riquezas, ainda estamos aquém da igualdade de condições de vida. Isso faz com que muitas pessoas precisem de ajuda do governo, sobretudo, com assistência à saúde e outros programas sociais como bolsa família, segurança e educação. E esta ajuda não é nada mais, nem nada menos que um direito! Oras contribuímos com impostos e não é pouco.

Desigualdade no Brasil e em suas grandes regiões.

Contudo, quando analisa-se o país de forma macro, no geral, as particularidades são esquecidas ou não são evidenciadas. Por outro lado, quando é feita uma apuração minuciosa acerca da mortalidade nos municípios ou nos bairros, verifica-se que há discrepância dentro das grandes regiões. Nota-se que, sobretudo, nas áreas periféricas e de pouca infraestrutura, a estimativa de vida é bem pequena.

Adicionar legenda

Em meio a esta conjuntura brasileira que foi e permanece, muito injusta, débil e desigual, temos um assunto recorrente e de suma importância, principalmente, para aquelas pessoas que mais precisam de ajuda: A reforma na previdência social. 


Comissões de direito previdenciário de todo o país em conjunto com outras dezenas de representantes de categorias profissionais, elaboraram uma carta aberta contra a reforma da Previdência apontando abusos na proposta do governo, por estar fundamentada em premissas erradas e conter vários abusos contra os direitos sociais, como a dificuldade ao acesso a aposentadoria e outros benefícios para a população que contribuiu com o sistema da previdência.


O rombo da Previdência é um tema constantemente abordado pela mídia e considerado um dos grandes problemas das contas públicas do país. Fonte: Metalúrgicos Erechin
Segundo argumentos apresentados na carta esse rombo deficitário na Previdência não existe, pois a Previdência está, segundo a Constituição inserida no sistema de Seguridade Social e ela “tem sido, ao longo dos anos, altamente superavitário em dezenas de bilhões de reais”.
Seguridade Social. Fonte: Caros Amigos

Nesta carta, também é feita uma exigência ao governo federal para a divulgação transparente das receitas da Seguridade Social, “computando todas as fontes de financiamento previstas no artigo 195 da Constituição Federal, mostrando ainda o impacto anual da DRU, as renúncias fiscais que têm sido concedidas, a desoneração da folha de salários e os créditos tributários previdenciários que não estão sendo cobrados”.

Segundo o deputado do PPS, relator da previdência, a reforma pretende igualdade. Mas, a pergunta que fica é: 

Se toda estrutura relacionada riqueza, raça e gênero permanecesse extremamente desigual, como podem justificar a mesma medida para todas pessoas? 

Contrapondo o ditado popular, a reforma na previdência teria a mesma medida para pesos diferentes e , assim, continuará não havendo igualdade na extrema desigualdade social brasileira.

Ordem e progresso? Artistas: Os Gêmeos


Pawel Kuczynski

Fontes consultadas em Março/2017:











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